Lisboa é uma cidade cuja história está escrita em camadas de nomes e de línguas. Desde as narrativas míticas que ligam a sua origem a Ulisses até às inscrições romanas e às gavetas toponímicas de origem árabe, cada designação revela uma faceta diferente do passado lisboeta. Este texto segue o percurso dos topónimos — Olisipo, Felicitas Julia Olisipo, Al-Ushbuna — e acompanha um personagem, o historiador municipal fictício Martim, que guia o leitor por vestígios arqueológicos, textos medievais e memórias urbanas. Em cada paragem vamos encontrar evidências, exemplos concretos e pequenos relatos que ajudam a entender como Lisboa chegou a ser chamada como é hoje.
Olisipo e as origens fenícias: do porto seguro a Phoenicia no estuário
Olisipo aparece cedo nos registos antigos como uma forma que remete para raízes pré-romanas. Segundo relatos e achados arqueológicos, houve presença fenícia na foz do Tejo por volta de 1200 a.C., quando comerciantes do Mediterrâneo estabeleceram postos de troca. Estes primeiros habitantes teriam conhecido a enseada com nomes que celebravam a segurança do ancoradouro, frequentemente transcritos como Alis Ubbo, uma expressão ligada a Phoenicia e às atividades navais.
Martim, o nosso guia imaginário, costuma levar grupos a um ponto junto ao castelo de São Jorge onde se encontram restos fenícios. Ele descreve as camadas de ocupação: objetos de cerâmica, ânforas e estruturas portuárias que reforçam a hipótese do uso da baía como polo comercial. Essas descobertas não só sustentam a teoria fenícia, como também ajudam a explicar etapas posteriores de evolução toponímica.
Para compreender melhor, veja-se uma lista de evidências e hipóteses frequentemente discutidas pelos investigadores:
- 📜 Presença de cerâmica fenícia perto do castelo e da catedral;
- ⚓ Indícios de um pequeno porto de cabotagem que corresponde a «Alis Ubbo»;
- 🧭 Traços de rotas comerciais que ligavam o estuário do Tejo ao Mediterrâneo;
- 🔍 Relação etimológica com termos do mundo fenício e cartaginês.
Há também a lenda de Ulisses, que cruza mito e memória. A narrativa que dá origem ao nome grego Ulyssipona ou Ulyssipona (forma lendária) alimentou séculos de imaginação literária. Embora não haja prova documental que coloque o herói grego a fundar a cidade, a história influenciou fortemente a tradição medieval e renascentista.
Exemplo prático: durante o século XIX, cronistas locais e estrangeiros relataram ruínas que, segundo interpretaram, confirmavam um porto antigo. Esses relatos, hoje comparados com achados arqueológicos, mostram como a narrativa fenícia/mitológica conviveu com a evidência material. Em resumo, a ligação entre Olisipo e um passado fenício oferece uma chave de leitura do lugar como «porto seguro» — uma ideia que se mantém até aos dias de hoje.
Insight final: a designação Olisipo condensa tanto o papel comercial do estuário quanto as memórias míticas que moldaram a identidade primitiva da cidade.

Felicitas Julia Olisipo: a cidade romana e vestígios entre o castelo e a Baixa
A passagem romana transformou profundamente o assentamento que viria a ser conhecido como Olisipo. Na transição entre a República e o Império, a cidade ganhou estatuto formal e a designação honorífica Felicitas Julia Olisipo, sinal de integração administrativa e de privilégio. Documentos e vestígios arqueológicos mostram que a área entre o atual castelo de São Jorge e a Baixa era o coração urbano romano.
Martim leva os visitantes ao teatro romano, um dos sítios onde a presença de Roma é mais tangível. As pedras recuperadas, a organização urbana em cardos e decumanos e os restos de infraestrutura indicam que a cidade era um centro produtor e exportador de bens. Vinhos, azeites e o famoso garum eram parte do comércio que ligava Olisipo às redes atlânticas e mediterrânicas.
Para facilitar a compreensão, apresento alguns pontos-chave desta fase:
- 🏛️ Estrutura urbana: traços de ruas e edifícios públicos entre São Jorge e Baixa;
- 📦 Produção e exportação: vinhos, azeite e produtos de conserva;
- 🧾 Integração administrativa: concessão de títulos e cidadania romana;
- 🔗 Conexões: vias que ligavam Olisipo a Bracara Augusta (Braga) e Emerita Augusta (Mérida).
A designação Felicitas Julia Olisipo testemunha uma estratégia imperial de premiação e fidelização. Ao receber esse epíteto, a cidade afirmava laços privilegiados com Roma, o que implicava benefícios fiscais e jurídicos. Esses privilégios atraíram investimento, população e maior sofisticação urbana.
Um caso exemplar: a recuperação do teatro romano permitiu identificar fases de construção que coincidem com reformas urbanas típicas do Alto Império. O teatro funcionou como núcleo cultural e local de encontro, provando que Olisipo não era apenas um entreposto, mas um centro com vida pública intensa.
Hoje, ao caminhar pela Baixa pombalina, é possível perceber camadas sobrepostas: o traçado moderno sobre ruínas antigas. A compreensão da cidade romana ajuda a explicar por que a Baixa, mesmo após destruições como o terramoto de 1755, reapareceu como centro administrativo e comercial. Em síntese: a herança romana, encapsulada em Felicitas Julia Olisipo, legou uma matriz urbana que ainda orienta Lisboa.
Insight final: a fase romana consolidou Olisipo como cidade articulada, comercial e administrativamente integrada, deixando vestígios que moldam a Lisboa contemporânea.
Al-Ushbuna e a herança islâmica: Alfama, muralhas e o nome Aschbouna
Em 711 a ocupação muçulmana alterou a fisionomia e a toponímia do estuário do Tejo. A cidade passou a ser conhecida pelas formas árabes que aparecem nos textos medievais: Al-Ushbuna, Aschbouna ou variantes como Al-Lishbuna. Este período, que se estendeu por vários séculos até 1147, deixou marcas profundas na organização urbana, na irrigação agrícola e nas práticas comerciais.
Martim enfatiza, durante as visitas, que muitos traços do bairro da Alfama — nome que surge depois, mas ocupa o espaço desse período — derivam de soluções urbanísticas e arquitectónicas de origem islâmica. A construção da cerca moura e as ruas tortuosas para proteção e sombreamento mostram uma adaptação sensível ao clima e à topografia.
Alguns pontos centrais desta fase são os seguintes:
- 🏰 Fortificações: construção de muralhas e de um castelo na colina que mais tarde será o Castelo de São Jorge;
- 🌿 Técnicas agrícolas: sistemas de irrigação e cultivo introduzidos ou aperfeiçoados pelos ocupantes;
- 🕌 Urbanismo: padrão de ruas estreitas que facilita proteção e microclimas;
- 📚 Cultura e comércio: integração nas redes islâmicas entre Norte de África e Al-Andalus.
O topónimo Al-Ushbuna evidencia a assimilação da cidade à geografia cultural islâmica. Ao longo dos séculos, a pronúncia e a escrita sofreram adaptações que geraram formas como Luxbona ou Aschbouna em documentos cristãos tardios. Essas transformações toponímicas são um testemunho da interpenetração entre línguas e administrações.
Um exemplo concreto: durante a reconquista cristã, muitos documentos referem-se à cidade com formas híbridas que combinam raízes romanas e adaptação árabe. Esses registos permitem traçar a evolução fonética que levaria, posteriormente, a variantes cristãs do nome. A persistência de traços mouriscos na malha urbana influencia até a experiência turística atual, tornando Alfama um local onde a memória islâmica está viva.
Ao culminar esta etapa, Lisboa prepara-se para uma nova reconfiguração política e toponímica. A transição entre Al-Ushbuna e os nomes cristãos abre caminho para a próxima secção sobre a reconquista e a transformação em capital.
Insight final: o período islâmico, sintetizado por Al-Ushbuna, forneceu a Lisboa soluções urbanísticas e toponímicas que sobreviveram à reconquista e moldaram identidades posteriores.
Da reconquista a Lisabona: Ulyssipona, Luxbona e a evolução do topónimo
A conquista de 1147 por D. Afonso Henriques marcou um ponto de viragem. A cidade começou a ser integrada numa nova ordem política e religiosa, e a toponímia sofreu várias adaptações. Formas como Ulyssipona, Ulixbona, Lixbona e finalmente Lisabona ou Lisboa convivem em documentos ao longo de séculos, mostrando a complexidade de um nome que é palimpsesto de línguas.
Martim narra uma anedota: ao consultar um cartório medieval, encontrou uma citação em que o notário usava duas formas do nome na mesma página — uma herança de práticas linguísticas ainda pouco padronizadas. Esse tipo de ocorrência ajuda a explicar por que a evolução do topónimo não foi linear, mas feita de adaptações fonéticas e gráficas.
Alguns aspetos relevantes desta evolução são:
- 📝 Documentação variada: cartas régias, forais e cronistas com grafias diferentes;
- 🔤 Transformação fonética: perda e alteração de sons herdados do árabe e do latim;
- 🏛️ Posicionamento político: em 1255, Lisboa passa a destacar-se como capital do Reino;
- 📣 Uso popular: formas orais que coexistem com versões escritas.
A formalização de Lisabona e, mais tarde, Lisboa, refletiu também fatores administrativos. Quando a cidade assume funções centrais no reino, existe uma tendência para uniformizar a toponímia nos documentos oficiais. Ainda assim, formas coloquiais e estrangeiras — como a inglesa Lisborne ou neologismos contemporâneos tipo Lisfulness — surgem no discurso cultural sem ser oficiais, ilustrando como o nome continua a gerar criatividade.
Exemplo prático: na literatura de viagens inglesa dos séculos XVII e XVIII eram comuns grafismos como Lisborne, que tentavam transmitir a pronúncia naquele contexto linguístico. Já no português popular, pronúncias como «Lixboa» mantêm resquícios fonéticos do passado árabe, o que é até hoje reconhecível em conversas informais.
Ao consolidar-se administrativamente, Lisboa absorveu e adaptou nomes. O processo não foi apenas técnico, foi também cultural: cada forma do nome carrega memórias e afirma identidades. Daí resulta uma cidade onde o topónimo é também um arquivo vivo.
Insight final: a transição de Ulyssipona e formas intermédias para Lisabona revela uma cidade em transformação política e linguística, cujo nome é o espelho de várias camadas históricas.
Séculos modernos e a persistência do nome: terramoto, Pombal, expo e a marca Lisboa
O episódio do terramoto de 1 de novembro de 1755 foi um choque profundo que reordenou a cidade física e semanticamente. Às 9h30 da manhã, Lisboa sofreu um sismo seguido de tsunami e incêndios que, segundo registos, causaram cerca de 90 mil vítimas — uma catástrofe que alterou não só a paisagem urbana mas também a narrativa coletiva. A reconstrução, conduzida pelo Marquês de Pombal, instaurou uma nova Baixa planeada com critérios sísmicos e funcionais.
Martim conta a história de uma família lisboeta cujos antepassados viveram a destruição e a reconstrução: os relatos orais mostram como o nome da cidade, apesar do trauma, permaneceu um laço identitário. A intervenção pombalina fez de Lisboa um exemplo de planeamento moderno, e a imagem da cidade reconcebida tornou-se parte da narrativa que a identifica internacionalmente.
Lista de eventos e transformações marcantes dos séculos XIX e XX:
- 🚢 1807-1808: entrada das tropas napoleónicas e a ida da corte para o Rio de Janeiro;
- ⚖️ 1908-1910: regicídio na Praça do Comércio e a proclamação da República;
- 🔒 1932-1968: período autoritário e as suas consequências urbanas;
- 🌊 1974: Revolução dos Cravos e a transição democrática;
- 🏗️ 1986: adesão à União Europeia e investimento em infra-estruturas;
- 🔥 1988: incêndio no Chiado e esforços de restauro;
- 🌐 1998: Expo’98 e o nascimento do Parque das Nações como polo contemporâneo.
Do ponto de vista toponímico, o nome Lisboa consolidou-se como etiqueta simbólica ligada à capitalidade política e cultural. No final do século XX e início do XXI surgiram modos novos de usar o nome em campanhas e textos criativos — por exemplo, neologismos como Lisfulness são usados por alguns autores para evocar o espírito lisboeta, sem carácter oficial, enquanto versões anglófonas como Lisborne aparecem em traduções e guias.
Exemplo contemporâneo: após a Expo’98, projetos culturais e turísticos incorporaram a marca «Lisboa» em iniciativas diversas, reforçando a identificação da cidade com modernidade sem apagar as camadas históricas. Em 2025, a cidade continua a negociar esse equilíbrio entre tradição e inovação, mantendo nomes históricos como parte integrante do seu património imaterial.
Por fim, a memória do terramoto e a resposta pombalina ilustram como um nome pode atravessar catástrofes e renascer ligado tanto ao passado quanto ao futuro. A persistência do topónimo até hoje mostra que Lisboa é um lugar onde história e urbanidade se respondem continuamente.
Insight final: após crises e transformações, o nome Lisboa permanece como selo identitário, resultado de séculos de adaptações e de uma narrativa urbana resiliente.
Qual era o primeiro nome de Lisboa?
Olisipo e variantes pré-romanas são as formas mais antigas documentadas; há fortes indícios arqueológicos de presença fenícia associada ao termo Alis Ubbo, que remete para a ideia de um porto seguro.
Por que se diz que Ulisses fundou Lisboa?
A ligação a Ulisses aparece na tradição grega como a forma lendária Ulyssipona. É uma narrativa mitológica que atravessou a literatura medieval, mas não é suportada por evidência arqueológica direta.
Como influenciaram os muçulmanos o nome da cidade?
Durante o domínio islâmico a cidade foi chamada de Al-Ushbuna (e variantes como Aschbouna), formas que influenciaram foneticamente as versões seguintes e deixaram traços na malha urbana, sobretudo em Alfama.
O que significa Felicitas Julia Olisipo?
É uma designação honorífica romana que sublinha a integração da cidade no sistema imperial e o estatuto que lhe foi atribuído, indicando privilégios e reconhecimento administrativo por parte de Roma.
Como as diferentes formas do nome sobrevivem hoje?
Formas vulneráveis como Luxbona ou Lisborne surgem em textos estrangeiros e em neologismos culturais, enquanto o uso oficial consolidou Lisboa. A diversidade de formas, contudo, continua presente na fala popular e na memória histórica.









